Sendas de Santiago — Parte II, Capítulo I
Capítulo I — De Ferrol ha Neda (continuação)
De como aportarom hao Mosteyro de Saõ Martinho de Xuvia
Andada ha primeyra legoa & confortados hos peregrinos despoes do refrigeryo na taberna do poiso adonde o taberneyro hos abespinhara cõm seo mote sobre ho padecimẽnto vindouro de hos pees, retomarom hos nossos romeyros o trilho ribeyrinho q os havia de levar ao Mosteyro do Couto, aquelle q jaa de loñge se patenteava cõm sua silhueta quadrada & altaneyra, dous cubellos arrombados ao tempo, paredes de pedra de cantarya bẽm assentada, & ao alto o cãmpanaryo q tãngia ha hora terça quãndo aos peregrinos foy dado avistalo. Hera ho Mosteyro de Saõ Martinho de Xuvia, q os naturaes chamavom de Mosteyro do Couto polo logar do Couto adonde se alevantava, parrochya de Xuvia, conçelho de Naroõn, terras q de antigo pertencerom haa estirpe de hos condes da Traba, casa muy poderosa do Reyno de Galiza no tẽmpo dos avos, q ahy ergerom o seo cenobyo familiar ẽm hos dias do Rei Ramiro de hos Asturyanos.
Dezia ha tradiçom q ho mosteyro fora fundado pera servir ho dito Sancto Martinho de Tours, ho cavaleyro q repartira ho mãnto cõm ho pobre quãdo ainda hera soldado da legiom imperyal & q despois ho Senhor Iesu Christo lhe aparecera ẽm sonhos vestido cõm ha metade da capa repartida, dizendolhe q ho q se faz hao mais humilde dos homẽs hè feyto hao proprio Christo. Tal hera ho padroeyro, & tal ha graça do logar: hũm mosteyro duplice de monges & monjas como nos antigos costumes germanicos, q se ajuntavom ahy ẽm offyciar a liturgia ainda q ẽm clausuras separadas, cada quoal ẽm sua dependença, mas todos ẽm hũa soo regra & hũa soo cãntilena de louvor ao Altissimo. Ẽm tempo nom muyto recuado, ha casa fora donatada haa Ordẽm de Cluny, depoes integrada ẽm ha Ordẽm de Cister da reformaçom rigorista de Bernardo de Claraval, & assĩm passara, ẽm pouco mais de hũm seculo, de cenobyo de familia a casa de cluniacenses & dahy a casa de cistercienses, mostrando ẽm sua propria pedra ha tensaõ daquellas trees correntes do monaquismo, ha senhoryal, ha pomposa & ha austera.
Aproximaromsse hos peregrinos polo carreyro q descia ẽm suave declive haa fronteyra do mosteyro, & ahi se detiverom hũms instantes pera contemplar ha fachada da igrexa, q hera obra romanica de bõm porte, cõm trees naves separadas por pilares q sustinhom arcos de meo ponto, e cõm hum portal de tympano lavrado adonde se podiom destrinçar figuras de animaes & flores entrelaçadas como hè habituall ẽm hos templos daquella idade, & Dona Inees, q sẽmpre fora curyosa de lavores artisticos, observou alto pera todos ouvirem, “vede como ha pedra rendiha aqui ha duas tradiçoẽs, ha do lavor compostelano q vẽm dos mestres das catedraes & ha austeridade dos cistercienses q quizerom desfazerse de todolo enfeyte por amor de Deos & da pobreza evangelica, dous spiritos numa soo fabrica”. “Bẽm dito, bẽm dito” assentiu Dom Zèh, “ha pedra hè memoria & memoria hè tãmbẽm theologia”. Tangia ho sino ha hora terça, tres vezes nove badaladas graves & pausadas q se propagavom polo cõntorno como vibraçom de bronze antigo, & hos peregrinos pararom hum momento ẽm reverencia, pondo as maos sobre os bordoẽs & curvando levemente as cabeças, cõm o sentimẽnto raro de q ho tẽmpo, naquelle logar, parecia recuar mil annos.
Do acolhimẽntoque lhes fez ho Freire Joannes & da nova q lhes deu
Quãndo se aproximarom da porta lateral do mosteyro, hũm freyre alli aguardava cõm seu habito enxabido & cordom branco haa cinta, homẽ de meã estatura, rosto enxuto, olhos vivos, q logo se adyantou pera lhes dar as boas vindas. “Pax vobis, peregrinos”, disse ẽm voz pausada inclinãdo levemẽnte ho corpo, “sejais bemvindos haa casa do glorioso Sancto Martinho. Soo ho Freyre Joannes, hospitaleyro deste mosteyro, & cõmpete a meo officyo acolher hos viajantes q polo caminho de SanctYago aportom haa nossa portaria. Entrade & repousai vossas pernas, q ainda vos sobram muytas legoas pera percorrer”. Hos peregrinos retribuirom ha saudaçom cõm grãnde affabilidade, identificãndosse cada quoal pelo seo nome, & Dona Inees q hia haa frente do bando, agradeceo ho acolhimento dizendo q vinham da longinqua Ilha da Madeyra, do Reyno de Portugal, & q haviãm chegado a Ferrol ho dia anterior pera dahy ẽncetar ho Caminho das peregrinaçoẽs hao Sancto Apostolo.
Ho Freyre Joannes mostrousse muy interessado pola origẽm tam distante de hos nossos viajantes, & demãndou se ha travessia do mar viera ẽm bõm porto, ca noticias chegavom amyude haa Galiza de tormẽntas q ẽm hos mares de Biscaya & do Cabo de Fimsterra dezimavom as embarcaçoẽs. “Foy travessia dura”, retorquio Dom Joham, “mas hos elementos nos foram favoraveis ẽm hos peryodos cruciaes, & tãmbẽm nossas preces nom forom ẽm vão”. “Decerto, decerto” anuiu ho freyre, “ho Sancto velou polos seos peregrinos como hè devido”. E levouos pera dentro do mosteyro, atravessando o claustro acaroado q tinha hũm pequeno lago ẽm seo cẽmtro adonde nadavom carpas de cor doirada, & dous freyres ẽm habito branco passavom de cabeça baixa & maos escondidas nas mãngas, ẽm silẽncio claustral. “Eys a horta”, indicou ho hospitaleyro, “lavramos como hè proprio dos cistercienses, ora et labora, & havemos pomar de pereyras & macieyras & hũma viña pequena de q tiramos ho vinho da missa & alguma cousa pera ho commum”. Dona Hẽrriqeta attenta ao q se passava perguntou se ho mosteyro tinha tãmbẽm horto de ervas medicinaes, q tal era seu officyo, & ho freyre acquiesceo, “decerto, ahi temos boldo, alfazema, arruda, hipericoõ, alecrĩm, malva, cidreyra, lameirinho & demaes plantas q usamos pera curas q se offerecem aos enfermos & hospedes”.
Detiveromsse instantes hao pee de hum poço antigo q tinha haa beyra hũa pedra lavrada cõm hũa concha de SanctYago entalhada, & alli ho hospitaleyro tomou ho ar grave & lhes disse: “peregrinos, hè-me forçado dizervos hũa cousa q nom hè leda como ho seria justo pera hospedes acabados de chegar, ho nosso Prior, Dom Julio, q hè padre & superyor desta communidade, jaa hà muytos dias jaz de cama & nẽm os freyres physicos nẽm hos remedios q usamos lhe valerom alivio & estaa muy agravado cõm grãnde dispneya & temos receyo q nesta noyte de hoje passe haa outra vida. Se vos aprouvera, hera grãnde consolaçom ao venerando Prior ter visita de peregrinos ẽm sua camara, q a benedicciõm dos q vaõ ẽm peregrinaçom hè muy poderosa & podelhe aliviar ho transito”.
Olharomsse hos cinquo entre si ẽm silẽncio sobressaltado & Dona Hẽrriqeta q como ja se disse era physica de officyo & jamais se furtava ao chamamento dos enfermos, retorquio sẽm hesitaçom, “ide adyante, freyre, q ho veremos prazerosamẽnte & quiçaa eu possa allgo fazer pelo padecimẽnto do venerando Prior q tãmbẽm ẽm Portugal & na Ilha da Madeyra cuydei de muytos enfermos & alguns delles foram salvos & outros, sẽm cura possivel, tiverom ao menos suavyzaçom dos derradeyros instãntes”. “Bẽm dito” murmurou Dom Joham, “& bẽm haja a casa q nos hospeda nesta hora”. E sahirom todos atrás do hospitaleyro, atravessãdo hũm corredor de teyto abobadado cuja penũmbra hera apenas afroyxada por luzes de candeyas amarellas q se reflectiam nas paredes encaladas.
Da grãnde afflicçaõ de ho Prior Dom Julio jaa de partida pera ho outro mundo
Chegarom haa cella priorall q hera dependença espaçosa cõm hũa janella de arco geminado q dava sobre ho claustro & deyxava entrar luz baça por entre cortinas de linho cru. Ao centro, sobre hũm leyto de madeyra de carvalho cõm columnellas torneadas & lençoes brãncos, jazia ho Prior Dom Julio, homẽm dos sessẽmta annos, cabeleyra alva, rosto enxuto & afilado polos jejuns & vigilias de hũa vida toda metida ẽm clausura, ho peyto arfava cõm dificuldade & cada inspiraçom trazia hum chiado fundo q parecia vir nom dos pulmoẽs mas das proprias entranhas da terra. Trees freyres assistiam ho moribundo, hũm delles o subprior, outro o enfermeyro, e o terçeyro hum noviço q rezava ẽm voz baixa as ladaynhas. Ho cheyro da cella era hũa mistura de cera de velas, encenso q queymava ẽm hũm pequenino turibulo de bronze & daquelle outro cheyro indizivel q acõmpanha hos corpos prestes a deyxar ha vida.
Ho Prior, ouvindo hos passos, abrio penosamẽnte os olhos & fez signal cõm a maõ pera q hos peregrinos se aproximassem. Dona Inees adyantousse, fez ha vẽnia & disselhe cõm voz contida “venerando Prior, nos somos peregrinos vindos de Portugal & da Ilha da Madeyra, hyamos pera SanctYago & ho Freyre Joannes pediunos a graça de vir vervos. Recebede ha bençom do Caminho q nos hè feyta haa nossa peregrinaçom & q ella vos seja partilhada”. O Prior sorriu levemẽnte cõm os labios secos & rachados & sua voz, mais sopro q som, mal articulou “hè o Sancto q vos manda peregrinos… ho Sancto q sẽmpre cuyda dos seos”. E fechou os olhos como se aquelle minimo esforço o tivesse exhausto.
Dona Hẽrriqeta acercousse maes do leyto & olhou pera o subprior, pedindo-lhe permissaõ pera examinar ho enfermo & disse “soõ Dona Hẽrriqeta, peregrina de Portugal mas tambẽm physica de officyo, q estudei has artes de Hyppocrates & de Galeno ẽm Coimbra & ẽm Salamanca, & q tive mestres do reyno de Aragom & da escola arabe de Toledo. Se m’o consentides, vou ver ho que ho corpo de Dom Julio nos pode dizer”. Ho subprior, hum freyre carregado de annos & de rugas, mais cõmpassivo q desconfiado, anuiu cõm a cabeça & afastousse pera dar passagem haa physica madeyrense.
De como Dona Hẽrriqeta examinou ho enfermo segundo as artes da physica
Dona Hẽrriqeta, segundo o costume dos sabios da arte medicinal, primeyramente lavou as maõs ẽm hũa bacia de cobre q logo lhe trouxe ho freire enfermeyro, & ẽm seguida descobrio cuydosamẽnte ho peyto do enfermo, encostou ho ouvido contra a costella esquerda, ouvio cõm grãnde attençaõ os ruidos internos do corpo, foy demorada ẽm hir percorrendo as differentes partes do thorax, & assĩm fez tambẽm cõm o ventre, palpãndolhe os flancos cõm dedos sabidos, attentou hao pulso ẽm hos pulsos das maõs & tambẽm ẽm ho pescoço junto haa carotyda como ensinavom hos arabes, & por fĩm levantou as palpebras pera ver hos olhos & ha sua coor.
“O corpo hè ho livro adonde ha enfermidade escreve”, murmurou ella baixinho, “& ho physico hè ho lector q sabe destrinçar essas letras. Aqui temos hũma pneumonia adyantada, hos pulmoẽs estaõ tomados, ho coraçom debilitado, & a pelle tẽm haa coor amarellada propria de hũm figado q jaa naõ filtra como deve. Hè hum bafo de naufrago, ha vela jaa nom levanta vẽnto”. Olhou pera ho subprior & cõm hũma franqueza q soo a verdadeira sciencia permite, disselhe “venerando frade, vou ser direyta como mandam hos antigos, vosso Prior estaa muy mal, ha enfermidade hè dos pulmoẽs & jaa avançou tanto q duuido qualquer infusom o possa salvar agora. Posso, sĩm, prepararvos hum cosimẽnto de hypericoõ cõm mel & ũa decocçom de raiz de regaliz q lhe aliviarão a tosse & ho ajudarão a respirar maes calmamẽnte, & se houver fygado de bacalhao ho posso temperar pera lhe untar ho peyto & abrir hos canaes do peyto, mas curalo, isso somẽnte o Altissimo agora & SanctYago seu Apostolo”.
“Fazede o q poderdes, dona physica” respõndeo ho subprior & logo despachou ho enfermeyro pera trazer dos lavores do hortus medicina**lis ho q necessario fosse. Dona Hẽrriqeta, ẽm hos minutos seguĩntes, preparou cõm ha sua propria maõ ho cosimẽnto, doseou com cuydado, diluiu ho hypericoõ em agua tibia, juntou tres colheres de mel & has gottas justas de tinctura de regaliz, & cõm muyta paciencia foy administrando ao Prior bebida apoos bebida, levantandolhe ha cabeça cõm hũa maõ & cõm a outra inclinando ha taça de barro vidrado.
O effeyto se fez sentir ẽm pouco, ho Prior respirou maes amplamẽnte, dois golfos de ar passarom ẽm pleno pelos pulmoẽs entupidos & ho rosto, q estava cinzento, ganhou hũa tenue cor de rosa. Abrio hos olhos & desta vez fitou cõm clareza hos circundantes, foy reconhecendo hum por hum, & detendo-se ẽm Dona Hẽrriqeta lhe disse cõm voz ainda fraca mas jaa intelligivel, “Dona, ho q me fizestes hè obra de mesericordia. Naõ me curaes ca isso eu jaa o sey, mas destesme hũma hora mais de claridade pera eu poder dizer o q me hè preciso dizer antes de me hir. Sentadevos todos, peregrinos & ouvi o velho Prior que pouco tẽmpo lhe resta neste mundo”.
Da visom q ho Prior teve do mundo invisivel
Sentaromsse hos peregrinos ẽm bancos de madeyra q o noviço foy trazendo ao redor do leyto, & fezse hum silẽncio recolhido na cella, soo entrecortado polo crepitar das velas & polo sino do mosteyro q ẽm hora distante tãngia haa hora sexta. Ho Prior fechou hos olhos hum instante como pera recolher forças, & começou:
“Sabede peregrinos q nesta noyte passada antes da matinas, estãndo eu jaa muy debilitado, ouve hũa visom q nom sei se foy sonho, se enleyo de febre, se verdade do mundo invisivel q hos antigos diziam estar ao lado do nosso & q sõmẽnte alguns spiritos privilegiados vẽm cõm hos olhos da alma. Vou cõntarvolo como ho vi & cada hum lhe darà o sentido q ho seo coraçom souber.
Vi-me a mim mesmo leyxar o corpo aqui jazente ẽm o leyto, & subir muy ligeyramẽnte como pluma q se eleva ao sopro da brisa acima do mosteyro, acima de Xuvia, do Couto, da rrya inteyra, & vi tudo de cima como se eu fora pasaro de grãnde voo. Vi a costa toda de Galiza adelinear-se como carta nautica, vi os atalhos do Caminho q vinha desde Ferrol & se estendia atee SanctYago de Compostela & nelles ia eu reconhecendo cada legoa, cada paragem, cada igrexa. Mas pera la disso, vi tãmbẽm hũa luz q nom era a luz do sol nẽm da lũa, hũa luz q vinha de dẽmtro das cousas & nom de fora dellas, luz q se irradiava ẽm cada folha, ẽm cada pedra, ẽm cada criatura, & soube q essa hera ha luce de q falaõ os misticos, ha luce increyada de Deos q sustenta o mundo a cada ĩnstãnte.
E continuei a subir, & passei polas espheras q os antigos pythagoricos diziam, ha sphera da lũa, ha sphera de Mercurio, ha de Venus, ha do Sol, ha de Marte, ha de Jupiter, ha de Saturno, & ẽm cada hũma me era dado ver hũma classe de spiritos q hi morava & q ẽm coros cantavom ho seu louvor. E pera la das estrellas fixas vi hũm grãnde manto azul como caudalouso & nelle pude entrever sẽm hos poder olhar de frente porq deslumbravom, hos rostos benditos dos sanctos & das sanctas q hos seculos têm contemplado. E ẽm meyo dos rostos vi os pees do Senhor Iesu Christo, vi as suas chagas q ainda manavom sangue de redempçom, & vi ho Seo rosto coroado de espinhos transformados ẽm raios de luz & souve sẽm que ninguẽm me dissesse q hera Elle ho Cordeiro q tirou hos peccados do mundo”.
Ao chegar a este põnto da narrativa o Prior interrõmpeosse, fechou hos olhos hum instãnte longo & lagrimas calmosas lhe escorrerom polas faces enxutas. Hos peregrinos olhavomno ẽm silẽncio reverente, sentindo q algũma cousa de grãnde se passava ẽm aquella cella q nom era de toda hũa cella mas se tinha tornado, pela presẽmça da palavra do moribundo, em hũm logar de revelaçom. Dona Inees foy haa mesa de cabeceyra, encheo ho copo de barro cõm agua de hum jarro & cõm muyto cuydado humedeceu hos labios do Prior pera q a fala lhe nom se quebrasse de todo.
Do milagre de Bernardo de Claraval & da supplica do Prior haa Virgem Maria
Recobrado hũmpouco, ho Prior continuou cõm voz ainda maes contida, mas cõm hũma força de convicçom q parecia vir-lhe nom do peyto mas do mais profundo do esprito:
“E nesse mesmo enleyo, peregrinos, vi cousa q vos peço escutardes attentamẽnte porq nom hè cousa qualquer. Vi ha Madre de Deos, ha Virgem Sanctissima, q estava sentada ẽm hum throno de pedra lavrada como hos q hè usança esculpir nas igrexas romanicas, vestida de tunica vermelha & manto azul como hè iconographia, & tinha ho mantel ligeyrãmẽnte arredado do peyto, & vi-Lhe ho seyo descoberto, & della jorrava hũm fio de leyte como esguicho de fontanaryo brãnco como ha lũa cheya & doce como ho mel de ho favo. E sẽmtia eu, q estava genuflexo ante Ella ẽm posiçom de joelhos ẽm orante, q aquelle leyte me era offerecido a mim, a mim peccador q nenhuma virtude tinha pera merecer tal graça, & queria abrir a boca pera o receber, mas tinha pejo, sentia-me indigno, recuava como faz a creança q nom merece o seyo da mãe.
E quamdo assĩm hesitava, peregrinos, vi-me transportado pera outra scena, & ẽm ella, no logar adonde estava eu, vi hum monge de habito brãnco como pano de Cister cõm escapulario preto, jovẽm de figura, ho rosto encavado polos jejuns & has vigilias, mas hos olhos accesos como brasas pelo amor de Deos, & soube q hera o bemaventurado Bernardo de Claraval, doutor mellifluo, q aos seus annos de mocidade rogara haa Sanctissima Virgem hum signal de seu amor maternal pera contra has duvidas da fee, & q ha mesma Virgem, comovida de tam pueril supplica, lhe espremera trees gottas de seo leyte sobre os labios, & dessas trees gottas se diz nasceo toda ha doctrina cisterciense de q ha contemplaçom hè caminho mais alto q a especulaçom & q a sabedorya verdadeyra hè a q hè bevida do peyto da Mãe celestial como ho menino bebe do peyto da mãe terrestre.
E vendo eu este Bernardo receber ho leyte mariano, comprendi sem que ninguẽm m’o explicasse q ha Virgem hè ho aqueducto da graça, como ho proprio Bernardo escrevera ẽm seu opusculo De aquaeductu, q toda ha graça q desce do Altissimo passa por ella, q ella hè ha Estrella do Mar q guia hos navegantes & hos peregrinos, q ella hè ha Mãe q recebe e dispẽmsa & q sẽm Ella ninguẽm pode achar ho Filho, porq foy della q ho Filho tomou carne pera vir a este mundo, & hè por ella q ho Filho continua a vir ao coração de cada christaõ.
E entom, peregrinos, ousadia me foy dada, & abri a boca, & pedi: Mãe Sanctissima, Virgẽm de has virgẽns, daa haa criança q soõ eu, neste estertor da morte, hũa goota soomẽnte do teo leyte, q eu nẽm mereço haas trees q destes a Bernardo, hũa soo, hũa soomẽnte, pera me dares forças pera o passamẽnto”.
Do que o Prior nos disse sobre amar a Deos
Calou-se o Prior por largos instãntes, & hos peregrinos sentiom q algũma porta interyor se lhes abria, & q nelles tãmbẽm cresçia ho desejo desse leyte espirytual de q ho Prior fallara. Dona Inees, a quoal tinha de seo natural ho pendor pera as artes alquímicas em q a substancia se transforma ẽm outra substancia mais nobre, conheçia bẽm essa imagẽm do leyte como prymeiro alimẽnto, leyte brãnco como ha luce de q ho Prior fallara antes & via na visom hũma allegoria perfeyta da transmutaçom espiritual. Dom Zèh, q como bom trovador entendia das figuras poeticas, sussurrou de sua parte pera Dom Joham, “isto hè cantar de amor mistico, hè como o Cantar dos Cantares q hos sabios da Sagrada Scriptura lẽm como espõnsaes da alma cõm seo Senhor”. Dom Joham acquiesceu, “& Bernardo, q ho Prior viu, foy ho q maes alongadamente glosou esse mesmo Cantar dos Cantares ẽm oytenta & seys sermoẽs, q apenas chega aos dois primeyros capitulos do livro, tam grãnde hera ho q via ẽm cada versículo”.
Reanimousse ho Prior, & abrio os olhos, & disse: “Bernardo, peregrinos, Bernardo de Claraval. Hè delle q vos quero falar antes q ha minha lingoa se cale. Escreveo elle, ẽm seo opusculo De diligendo Deo, isto hè, Sobre Amar a Deos, q ho amor de Deos tẽm quatro graos. Ouvi, eu jaa apenas tenho voz pera o dizer hũa vez & nom mais.
Ho primeyro grao hè ho de amarse o homẽm a si proprio polo seu propryo amor, q hè o amor da carne, & q hè natural & forçado, porq sẽm elle nẽm mesmo poderiamos comer & beber pera sobrevyver, & cada quoal de noos começa nesse grao ao nascer & por mui tẽmpo nelle se quedam muytos sẽm jamais sahir.
Ho segundo grao hè ho de amarse a Deos pelo proprio amor do homẽm, isto hè, amar a Deos porque Deos nos dà cousas q nos sustẽmtam: ha chuva sobre as searas, ha saude do corpo, ha protecçaõ ẽm ho perigo, hos filhos & ha familia. Hè amor ainda interessado mas jaa virado pera ho alto, q hè por ondem se começa ha verdadeyra subida.
Ho terçeyro grao hè ho amar a Deos por amor do mesmo Deos, & nom maes polos beneficios q Elle nos dà. Hè amor jaa puro, q olha pera Deos como o filho olha pera ho pae nom pelas heranças q recebe maes pela paternidade ẽm si. Hè ho amor ao quoal aspira o monge, ho contẽmplativo, ho peregrino, & q hè raro de attingir nesta vida, porq pede dasprendimẽnto de si mesmo.
Ho quoarto grao, & aqui hè q ho coraçom mais arde, hè ho amarse o homẽm a si mesmo soomẽnte por amor de Deos, isto hè, ver-se ho proprio individuo nom como entidade separada de Deos mas como expressom & instrumento do amor divino, viversse uma vida ẽm Deos como ha gotta de agua se ẽmbebe no vinho do calix & com elle se faz hum sabor unico. Hè estado raryssimo nesta vida, q Bernardo dezia ser concedido apenas por instãntes & como antegosto do Paraiso, mas q ẽm a outra vida sera condiçom permanente dos eleytos.
Hè por isto, peregrinos, q os monges & has monjas, & has gentes q se applicom haa vida espirytual & vos mesmos q empreendestes peregrinaçom hao Apostolo, hides per esse caminho dos quoatro graos, subindo, descendo, retornando, mas sempre cõm ho coraçom virado pera ha causa derradeyra de todalas cousas q hè ho amor de Deos. E sabei q nesse amor nom hà medida, q Bernardo escreveu — & estas suas palavras nunca me sahiram da memorya — modus sine modo, medida sẽm medida, porq ho q hè medido hè finito & Deos hè infinito & soo o infinito pode receber ho infinito”.
Da derradeyra mensagẽm do moribundo Prior
Fez ho Prior nova pausa & olhou hum por hum hos peregrinos & como se quisesse fixar cada hum delles ẽm sua memorya antes de partir, demorousse no rosto de cada quoal. E entaõ, cõm voz q jaa hia se desfazendo ẽm sopro, disse:
“Peregrinos, tomai esta minha mensagẽm como ho ultimo presente q vos posso fazer ẽm vida & q ella vos accompanhe atee SanctYago & maes além ainda. Tres cousas vos digo:
Ha primeyra: q ha morte nom hè fim mas transito & q quãdo me virdes daqui a pouco partir, nom choreis q ho q se passa nom hè perda mas mudança de domicilyo. Ho corpo fica mas a alma vae & nẽm hum fim hè ho q vae ali, hè antes hũm passar dum logar a outro, dũm modo de ser a outro. Hè o q vos disse Bernardo: medida sẽm medida.
Ha segunda: q ho caminho de SanctYago q encetastes hè & sera o tẽmpo todo metaphora desse outro caminho q hè a vida inteyra do homẽm sobre esta terra. Cada passo q derdes hè jaa hũm passo dado nesse outro caminho. Naõ pisades hos trilhos cõm os pees soomẽnte, pisai-os cõm ho coraçom, cõm a memorya, cõm a intelligẽmcia & cõm a alma & lembrai-vos sẽmpre dos quoatro graos.
Ha terçeyra, ouvi bẽm porq esta hè ha maes obscura & a maes preciosa, hè cousa q me veo na visom & q nom me hè dado explicar de todo: quamdo virdes ho mar de novo, ao chegardes a Compostela hà-de chegar momẽmto ẽm q tereis q hir maes alẽm do Apostolo, pera Finis Terrae, atee o ponto adonde a terra acaba & ho ocean começa, & ahi vos sera dada hũa graça q nom posso descrever porq nom ha palavras pera ella. Mas vos pediria — & isto hè quase rogo — q quamdo lá estiverdes, lembres este velho monge q hoje vos fala & q lanceis ao mar hũma pedrinha qualquer levada do Caminho ẽm meu nome, q ha pedra vae & a memorya fica. E a memorya hè ha forma terrena da eternidade”.
Calou-se de novo & desta feyta na cella sse fez um silẽncio profundo apenas entrecortado pelo zumbir de moscas esvoaçando naquele espaço de revelaçom. Dona Hẽrriqeta tomoulhe ho pulso, fez signal cõm a cabeça pera o subprior & disse baixinho “vae partindo”. Hos freyres ajoelharom-sse aos pees do leyto & começarom a entoar o Sub Tuum Praesidium, a antiquissima oraçom haa Mãe de Deos, & hos peregrinos, embora nenhum delles fora monge nẽm clerigo, ajuntarom suas vozes haquellas dos freyres porq aquella oraçom todos a sabiam. Ao chegar das palavras “ne despicias in necessitatibus nostris, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta”, o Prior abrio ainda hũma vez hos olhos, esboçou cõm hos labios algũa cousa q ninguẽm cõnseguio interpretar, sorriu muyto levemẽnte, & deixou ir ho ultimo sopro. E foy assĩm q passou hao outro mundo o Prior Dom Julio do Mosteyro de Saõ Martinho de Xuvia, ẽm presẽmça de hos seos freyres & de cinquo peregrinos vindos da Ilha da Madeyra.
Dona Inees, cõm os olhos rasos de agua, sussurrou pera os companheyros, “viemos pera Saõ Martinho de Xuvia como peregrinos & saimos como testemunhas”. Dom Zèh acquiesceu cõm a cabeça & Dom Joham murmurou apenas “modus sine modo”. Detiveromsse ali ainda algum tẽmpo, recolhidos, atee q ho subprior agradecendolhes cõm gratidaõ inteyra a presẽmça naquelle momento, hos acompanhou de novo polo claustro, lhes pediu a charydade dũma oraçom pelo defunto, & hos despedio “Ide cõm Deos & cõm SanctYago, peregrinos. Vos aqui chegastes sẽm o saberdes pera ser testemunhas do transito do nosso Prior. Ho Sancto vos mandou, hè elle q vos dirige ho passo, & sera elle q vos hade levar atee Compostela & maes além”.
Ultreya, Ultreya, et Suseya.