Sendas de Santiago — Primeira Parte
Prólogo
O presente opúsculo é memória de uma peregrinação feita a Santiago de Compostela em Outubro de 2024, pelo caminho inglês. Nele se consigna um diário de viagem mais imaginário do que real…
Sentemo-nos, pois, à luz de vetusto candeeiro para ouvir as fábulas que aqui se contam. Como nos sonhos, os sucessos desta narrativa fundem-se entre eles, trazendo, cada um, o seu contributo à verdade dos acontecimentos e à energia que deles emana. Pretende o autor que as vibrações implícitas no texto e as emoções que ele poderá suscitar no leitor, sejam coloridas de amizade, solidariedade, bemquerença, desafio, sorriso, ou, como dirão as personagens, de Paz, Amor e Gratidão. Boa leitura e Bom Caminho!
João Gabriel Correia
Peregrinação
[ Documento encontrado pelo acaso do destino nos “arquivos” compostelanos ]
Este he ũ documento muy antigo de hos anales de ho Reyno de Galiza ẽ ha cidade de SanctYago q chamõ de Cõpostela cõ ũa relaçom de como fizerom peregrinaçom ũa ẽbaixada da ilha da Madeyra de ho Reyno de Portugal atee ha dita çidad de SanctYago & per grãde deuoçom a SanctYakobus El Maior apostolo de N. Senhor Iesu Christo.
Relaçom de ũa peregrinaçom
Relaçom de ũa peregrinaçom q fizerom da Ilha da Madeyra atee haa çidad de SanctYago no Reyno de Galiza
In illo tempore auia hũs nobres da Casa Real de ho Reyno de Purtugal que uiuiã na Ilha da Madeyra, Ilha de ho Principe N. Señor D. Hẽrriq, & esses nobres ouverã per bẽ entreprẽder hũa peregrinaçom haas reliqias de SanctYago o Maior filho de Zebedeu, apostolo de Iesus Christo, pera salvaçaõ de suas almas, porq auiã grãde devoçaõ pelo apostolo q correo todala Hispania pregãdo ho Sancto Evangelho aos gentios. Fizerom entaõ alongados aprestos procurãdo as bençaõs do Altissimo y a proteeçom de hos elemẽtos & despois de grãde viagẽ y tormentas, muy desprouidos de çeqito y çervidores per o intuyto spiritual q traziã, aportarom haa villa de Ferrol na Coruña terra de ho Reyno de Galiza, ẽ ho dia de doze de octubro deste anno de N. Sr. I. Christo.
Das gentes que da Ilha da Madeyra vierom pera peregrinar atee haas reliquias do SanctYago
Na embaixada q da Ilha da Madeyra vierom auia ẽ primeyro logar três saabias, muy doctas & versadas ẽ has materias de seus estudos, todalas ellas chamadas de Maria, porq hos designios celestes ouueraõ por bẽ darles esse nome que ẽm a lingoa antigoa do Oriẽte era Maryah pera dizer a pureza & virtude & virgindade de coraçaõ y de alma, polo q a sina que lhes foi dada logo q sahiram do ventre de suas mãys foy a de serem muy virtuosas no q deuiam entreprẽder nas suas uidas.
Tambẽ as fadas que logo assistiram aos primeyros respiros q derom quiserom acrecẽtar mais qualidades haas recẽm nacidas, pelo que disserom haa primeyra menina “Esta se haade chamar de Yneez, q hee como jaa diziã hos gregos antiguos ‘hagnes’ q queria dizer pura & casta” y as fadas, leuantãdo a varinha magica cõ grãde ternura & authoridade ẽ uolta da sua cabecinha, assĩ prosseguirom “pola magia da Terra & do Ceo & polos Sanctos Angeles Guardiães & polo Diuino Sanctu Spiritu q nos traze ho sopro da uida, noos te damos a sina da uirtude y da pureza” & as fadas sopraram ẽ unissono muy deuagarinho sobre a recẽ nacida q logo abriu seus olhinhos com grãde entẽdimento.
Quanto haa segunda menina as fadas consultarom o liuro dos segredos do futuro & viram q tinha duas lindas trãças nos seus cabellos haa moda dos germanos & entaõ della se aproximaram logo que sahiu do vẽtre de sua mãye, & dandolhe ho seu primeyro sopro disserom “noos te damos o nome de Hẽrriqeta, q quer dizer na lingoa germaanica señora y princeza do lar, governanta industriosa de todolos hogares de acolhimẽto y de crecimiẽto, cadinho de virtudes, belleza y saber” y tomãdo a varinha magica haa volta de sua cabecinha, sopraram demãssinho sobre ella qual logo abriu os olhinhos y sorriu.
Haa terceyra menina, primogenita filha de Dona Yda y de Dom Ruy tambẽ nobres da Casa Real, as fadas ẽ olhando muy intẽssamente para a recẽ nacida, cõ muyto carinho, disserom “es hũ dom diuino pera esta família, testemuño eteereo da benevolẽmcia do Altissimo, graça esperada, y assĩ o teu nome hè Graça, Maria da Graça” y tocarom cõ a varinha magica a cabecinha da menina q logo abriu os olhinhos, y soprando levemente disserom ainda “noos te damos a sina de seres soberana, graciosa e vidente, vidente do universo” e a menina sorriu agitando seus bracinhos como se quizesse falar mas inda naõ soubesse as falas de seos paes, y ao ver a agitaçom cõ q lhes presenteava, as fadas añadirom “também haasde comandar aos uentos, cõ palauras y numeros, porque o universo he o teu destino”.
E assĩ foram chamadas as trees Marias, Maria Inees, Maria Hẽriqeta e Maria da Graça.
Auia tãbem hũ menino a quẽ foi dado o nome de Iosef que he nome de Sancta Familia, & que em hebreo hè Yoseph q quer dizer aquelle que acrecẽta porq Deos multiplica os bẽms dos homẽs q Lhe saõ fieis & justos, & as fadas quamdo o viraõ logo q foy nato disserom “Iose, ademaas de ser justo, tu seraas tambẽm nobre & illustre & assĩ tu te chamaraas Alberto q jaa na lingoa dos germanos queria dizer hum nobre illustre de brilhante intelligẽcia, pastor & conductor senaõ de ouelhas, pelo menos de homẽs” & o menino agitouse em seo bercinho & dando gritinhos ẽ melodia, muy contente, pelo q as fadas continoaram “a tua sina seraa tãbem de ser trouador pera contẽtamento de teos pays & de todolos ẽ tua volta, ẽ verso & ẽ cantigas seraas a alegria das gẽtes”.
Per fim, auia tãbẽ hum outro menino a qoal mãy começou os trabalhos pera o parimẽto cõ grãdes custas passandose dous dias ẽ dores & suores cõfirmamdo o q dize a Biblia q Deos condenou as molheres dos homẽs a dar haa luz no estertor do corpo & q nẽ a Marya Bixana parteira conseguia destrinçar tamanho bloqueamẽto estando todos muy inquietos, acudirom entom as fadas q de subito comãdarom haas entranhas de ha madre de se abrirem pera q sahisse a creança dando gramde alivio a todos & logo seos paes derom o nome de Joham & q era agraciado per Deos cõ gramde mesericordia por ter superado tamanha proua & as fadas q erom presentes ao parimẽto assĩ falarom “este menino tambẽ he Gabryel, porq sẽdo hoomẽ de Deos & hoomẽ forte, sera ademaas mensageiro tal como foy o Arcanjo Gabryel q anunciou a Boa Noua haa Diuina Madre de Deos” & passando a varinha magica ẽ sua volta soprarom cõ brandura dizendo “Joham seras chamado, amen, Joham Gabryel, amen, assĩ seja”.
E entom taes creamças, todas primogenitas, crecerom nas casas de seos paes ẽ força, sagacidade, sabiduria y perventura alguma rrequietaçom q hè natural nas primeyras edades, & todas demonstraram q nom tinham sido vãmente contempladas por tam magicos designios.
De como crecerom & se desenvolverom taes creãmças & das artes q seos spiritos dilatarom
Sayba o lector q os dotes q as potẽcias celestes outorgam aos recẽ nacidos saõ soomẽnte hum impulso pera q as crias dos humanos arrãquem soberanamẽte polos caminhos da uida, mas q os mysterios do devir surpreẽdem amyude & de forma inesperada a teia q o tempo vai urdindo aa medida que crecem os corpos & a intelligẽcia & os saberes. Pois foy assĩ q as meninas e meninos da nossa historia crecerom ẽ nobres casas do Reyno de Portugal, todas ellas cena animada & industriosa da uida cõtẽporanea ẽm q o acesso ao saber & haas artes hè vantagẽm q convem fructificar pera q como dize o Grãnde Livro da Uida as perolas nom sejam perdidas por ẽtre aqueles q as nom recoñecem.
Neste entremẽtes hè privilegio do humilde escriba q sou, fazer avançar sẽ contençaõ a machina do tẽmpo q enquanto canta, o trovador bayla, & enquanto bayla, as engrenagẽms rodam sẽ fim & aparece entom ũa outra cena da nossa historia. Decerto, decerto, som nobres as gentes q nos leuom polo Camiño de Santiago.
Dos nobres q determinarom correr terras na esteyra do SanctYago
Nom teria hauido embaixada senom fora pola uontade de todos & mormente da muy industriosa Dona Inees, nobre instruhida ẽ muytas artes entre alquimia, physica & tambẽ maestra de engeños mais diuersos q nom tinhom segredos pera ella, & fora a cuydado desta Dona Inees q tamaña viagẽ foy aprestada.
Tambẽm se ajuntou Dona Hẽriqeta q ja naõ tiñha tranças porq seus cabellos haviãm de esvoaçar graciosamẽte com o uento da Ilha & esta Dona Hẽriqeta era versada nas artes physicas & de medicina nom tẽndo o corpo humano segredos pera ella pois uira muytos, nom so por fora como por dentro, ayudando na cyrurgia & tamañha era sua arte q antes de o physico recorrer hao cutello, ella ja tiñha leuado o enfermo pera os braços de Morpheo q assĩ nom sentia os golpes q pera seo bẽm lhe seriam dados, & esta Dona Hẽriketa foy chamada de encantadeyra.
A terceyra dama foy Dona Graça, doucta de todas has mathematicas desde a escola de Pythagoras, sabedoura de numeros, equaçoẽs, proposiçoẽs, theoremas, prouas & contradiçoẽs, geometrias das duas & das trees dimensoẽs quiça mais porq ha sabedoria mathematica gera conceytos tam abstractos q alcançom os cimos mais altos & ademaas as estrellas.
Tambẽm se ajuntou hao bando Dom Iosef ho Alberto, per vezes chamado Dom Zèh, homẽm de leys do Reyno de Portugal, musico & maestro nas artes da melodia, da harmonia e do som, tocador de instrumẽntos de cordas e de fole, trovador eximio tanto ẽ prosa como na poetica arte, brilhante no seo porte, muy afauel & logo foy presẽte cõ seos dous bordoẽs porq pera andaar hay q hir polo seguro nas subidas & nas descidas & para dar latagadas a algũm caõ raivoso ou outras bestas feras a cruzar polo camiño, pois o SanctYago embora sancto nẽm sẽpre commanda o movimẽnto das alimaarias.
Ho ultimo da comitiva foi Dom Joan ho Gabryel, homẽ reservado, oryundo da Ilha & conhecedor de terras d’alẽm, viajante durante annos & q tendo regressado haa Ilha logo quis seer parte de hos peregrinos, muy preste no andar & tambẽm de boa cõposiçaõ ya q seus estudos ho levarom nom soo pola philosophia & sciencia da alma q hos antiguos & modernos chamom de psychologia, & ademaes ẽm contacto cõm os mestres do Oriẽnte teve ensinamẽntos ẽm mysterios de cõsciencia, visiveis & invisiveis o q hè sẽmpre bõm levar ẽm seos provimẽntos quando se enfrenta as terras brumosas do setẽmtriaõ galego.
De como se aprestarom pera o primeyro dia de caminho
Este nobres, todos maiores tanto de idade como de intelligencia, depois de pitança preparada pelo albergueyro que achava que jejuar antes de correr campos & atalhos naõ era o melhor meyo de enfrentar os perigos de jornada, dormiram em camas sanctificadas que o Prior da Igrexa de San Francisco benzia no inicio de cada anno & perventura tiverom sonhos naõ encomendados em que iam sacudidos de baque em baque, mal assentados em tapetes volantes instaveis arriba da ria de Ferrol, quiçaas prenuncio de tribulaçoẽs a vir. Antes da alva se levantarom elles com muyta expectativa ante o desconhecido q hos esperava & determinaram fazer as abluçoẽs & aprestos dos corpos & das almas para depois galgar os trilhos do Sancto naõ sẽm olvidar o quebra jejum q o albergueyro deyxara jaa posto na grãnde mesa do comedor.
Maes tarde ajuntaromse na antecamara do piso bayxo logo haa entrada do parador, puseromse em roda, vestidos de tunicas peregrinas, deramse as maõs & a Dona Inees assim falou com a inspiraçaõ acalmada & segura da sua sciencia, “peregrinos, vamos iniciar o caminho, leves & ligeiros, despojados de artefactos, cõm nossas capas pera chuva & vento, deyxãdo de lado o superfluo & inutil, concentrados no camiño, lembrãndonos de q pisar os trilhos de o SanctoYago hè privilegio infindo pq o Sancto veyo da terra ẽ q N. Sr. Iesu Christo se ẽcarnoo, atee ao fim das terras de q noticia se avya & q chamavom de Finis Terrae, ou seja o Fim da Terra, na Hispania Romana, & q ẽm peregrinando, entramos a fazer parte do grãnde ajuntamẽnto de fideles haa nuestra Ecclesya q buscom a salvaçaõ ẽm esta terra concentrãndosse nos ensinamẽntos da Sancta Madre & pera traas deyxamos todolo q se nom necessita & vamos virgẽns de preconceytos, maos humores, malevolas intençõens & demaes preoccupaçoẽns & levando as mentes vazias deyxãndo q o silẽncio interior seja logar de acolhimẽnto de todolo q ho camiño nos vae a trazer porq soo no silẽncio das nossas mentes hè q as potẽncias celestes nos falom, ca este hè ũm caminho tam soo physico como spiritual q vamos agora iniciar” & todos respõnderom “assĩm seja” & detiveromse instãntes longos sẽm fala como pera melhor deyxarem penetrar tam ditosas palavras. As gentes q passavam naquella camara do Parador viraõ cinquo peregrinos ẽm roda dandosse as mãos, de olhos çerrados, começãndo a balouçarse muy lentamẽnte como se brisa houvera, mas decerto q brisa nom era ca nom avya noticia de ar encanado algũm, & pasmadas ficavom ao ver tamanha armonia q era decerto agouro de bẽmdiçom, q o Prior da Igrexa de San Francisco costumava dizer q quãmdo hũm bando de christaõs agradava ao Altissimo isso se via na luce q emanava delles & era o que entomces se via.
Entrementes q continuavom o balanceyo, Dom Zèh começoo a entoar hũa melodia ẽm modo de cantochaõ psalmodiãmdo sẽm palavras & tam grãmde foy o enleyo q todos se puserom a entoar cõm elle, cada hũm haa sua maneyra & cõm sua voz pois q avya trees molheres & dous homẽns & foy cousa linda de se ouvir cõm grãmde deleyte entre todos pois era inesperado desfecho & q atee o albergueyro veyo espreytar & todos sentiam a energia trãnquila q surdia de entre elles. “Decerto q estamos preparados” deliberou Dona Hẽnrriqeta, “nossos corpos estam satisfeytos, calmas as nossas mẽntes, descuydosas nossas almas ca estas saõ as conditiones q Aesculapio promulgava ẽm seo tẽmpo pera q reyne a harmonia suprema & a felicidade. “Sim” retorquyo Dom Joham, “pero hai hũa practica maes a q se queredes vos solicito”, & como deyxava a roda todos olhavam pera elle cõm curiosos sembrantes, & elle continuoo “venhom a esta camara mais resguardada, vamos fazer respiros”.
Dos feytos do Homẽm do gelo
“Respiros”, retorquirom ẽm uniçono, surpresos, porq nom tinham jamaes avido noticia de tal thema, & soo Dona Hẽrriqeta se nẽmbrava como os physicos ayudavom os enfermos de tysica a clarificar suas vias pera q fossẽm produzidas grãmdes escarraduras desbloqueãmdo os pulmones entupidos de maos humores, pero ẽm julgando pelos sinaes q escrutava ninguẽm era tysico naquelle rancho, “respiros, decerto” atalhou Dom Joham cõm sonrrisa jaa a mingoar de suas faces mentres levava os compañeyros haa camara contigoa, & dizialhes de se sẽntarem ẽm o soalho brunido, procurãndo almofadas ou traveçeyros pera accomodar seos assẽtos pero ahi nom los avya.
“Era hũa vez”, principiou Dom Joham, “hũm cavaleiro do Condado de Frandres chamado Wim da casa dos condes de Hoff, que vivia tranquilamente cõm sua molher & seos quatro filhos pequenos sendo q o maes inçaõ nẽm hum anno tinha & o dito Dom Wim avya per habito de correr as frorestas dos payses baixos levando os forasteyros a conhecer as ditas extensoẽns, respirar os ares sadios dos pinheyraes & dos bosques de carvalhos, desfrutando aquella tranquilidade suçurrante q a aragẽm trazia ao bullir as arvores soavemente & mesmo colher desvairadas plantas assĩm como cogomelos porq sabia muyto bẽm destrinçar os q eram convinhaveis pera ho corpo, dos peçonhentos q eram causa de morte ou muy grave molestia.
Aprazia a Dom Wim a quietaçaõ das frorestas & a visaõ dos animaes q as poboavom, gazelas, veados, porcos bravos, linces, sẽm contar as aves de voo, corvos, gralhas, tentilhoens, melros, mochos & mesmo aves de rapina q dizimavom as ratazanas & coelhos pequenos q pululavom entre os musgos tenros & humidos, & de tal feyta passava elle horas & horas a par de seo cavallo quer q estivesse soo ou cõm forasteiros.
Hũm dia quamdo voltou a sua casa despois das vesperas, jaa noyte, ouviu grãnde choradeyra & ẽm entrando ẽm casa lhe deram a nova de que sua molher era finada porq se tinha matado a si propria cõm infĩnda desesperança & q tal confrangedor sucesso foy o maior abalo q lhe poderia ter occorrido a elle & aos seos filhos q sẽmdo pequenos jaa tinha noçaõ de q lhes fallecia a maẽ. O choque foy tam grãmde q Dom Wim perdeo todolos seos meyos physicos & mentaes, ficamdo prostrado horas & dias a fio, sẽm comer nẽm beber, como se quisesse ir ter cõm sua molher no Alẽm & valheramlhe as gentes da sua familia q acudirom logo pera o ajudar ẽm tam malogrado passo ca elle quase nom sabia maes quẽm elle era & assĩm passarom a cuydar das creanças. Pera olvidar o infortuneo Dom Wim foy correr mundo, viajando atee o oriẽnte onde viveo muytos annos & estudou com os mestres spirituaes dos indus & dos tibetanos & foy ahy q aprendeo a meditaçaõ & as artes do fogo interior pera despertar o dragaõ sagrado q temos dentro de noos & tam eximio se tornou ẽm taes artes q era capaz de ficar desnudado na neve & no gelo horas a fio, ca quãmdo se alevanta o dragaõ interior o corpo humano faz prodigios supportando o q normalmẽnte naõ supporta, & a instruçaõ q lhe avyam dada os monges era a concentraçaõ da mente & huma respiraçaõ muy cõmpassada q era assĩm q practicava elle ẽm hos contrafortes das montanhas dos himalayas. De regresso haa sua terra, Dom Wim entreprendeo de instruir as gentes nesses methodos orientaes, tendo demonstrado hos prodigios que conseguia pelo que foy chamado de o homẽm do gelo”.
“Agora, companheyros peregrinos”, retomou Dom Joham despoes do largo introyto, “pera activar o fogo interior hè mister recorrer haa respiraçom dos mõnges do oriẽnte” & assĩm foram instruydos nos ensinamẽntos de Dom Wim antes de encetarem o caminho de SanctYago.
De como Dona Inees proçeguiu na preparaçom dos peregrinos
Findo o respiramẽnto, nossos peregrinos assentados nas taaboas do soalho pulido, de pernas cruzadas & ẽm roda, palpebras çerradas, accalmarom o rythmo do iñspirar & expirar, mẽntres se concentravom no fluir do ar q lhes inũndava os peytos ora aligeirados, ao passo q hũm veo de serenidade descia sobre as mentes, & Dona Graça agitãndosse ẽm sua base comentou pera si propria “agitar o fogo compreẽndesse se fora em tẽmpo de neve, mas agora soo se prenuncia chuva & o tẽmpo estaa ameno” & logo lhe retorquio Dona Hẽnriqeta q isso devia de ser hũa metaphora pera significar a activaçom dos orgaõs, seos liquidos & humores, q era estrategia conhecida dos physicos pera evitar syncopes & outros desfallecimẽntos, & q se sẽntia jaa os beneficios de tal practica, & q ficava grata a Dom Joham de hos ter guyado dessa maneyra.
“Gratidaõ”, responderom ẽm echo & logo proçeguiu Dona Inees, “peregrinos”, q era assĩm q sẽmpre começava o seo discurso, “seria oportuno se vos apraz q façamos hũma outra practica pera reforço de nossa determinaçom, ca como sabedes o caminho de SanctYago hè deveras hũm caminho de muytas legoas a percorrer, mas hè tambẽm hũm percurso spiritual de transformaçaõ de nossas vidas & como tal hè mister fazer obra de intençaõ” & assentados escutavom de spirito attento o q lhes dezia.
“Obra de intenção” comẽntarom, “decerto, obra de intençaõ”, atalhou Dona Inees, “o primeyro passo do caminho ẽmpeça cõm a intençaõ, concentremos nossas mentes nas intençoẽns q cada hũm traz & nas preces q fizemos & ẽm todolo q cada quoal deseja como finalidade derradeyra do percurso q nosso coraçom tãnto almeja. Cõmpenetremonos por instantes nessas ditas intenções, que ellas sejam positivas, constructivas, bẽmquerentes, plenas de cõmpaixaõ e de amor sem condiçoẽns, pera si & pera todolos os outros” & assĩm se cõmpenetrarom.
“Agora, como renẽmbraamos nossas preces, vamosnos concẽntrar ẽm nosso coraçom q hè do coraçom q proveẽm as intuyçoẽns”.
Calmosos estavom, serenos, comovidos interiormẽnte por todalas razoẽns per q ally estavom & nesse azado instãnte, Dom Joham, çiente da força q dimanava de tam amigavel gremeo, tomou a palavra, “hè grãnde a gratidaõ a Dona Inees polo q nos vẽm renẽmbrar, & como estamos nesta concẽntraçom, vamos imaginar q no cẽntro desta roda, em meyo de noos, estaa hũa sphera de luz muy brãnca, tam brãnca como a via lactea & q dentro da sphera cada hũm de noos vae colocar as suas intẽnçoẽns, sentindo profundamẽnte as vibraçoẽs positivas q ellas suscitam”. “Durante nosso andar teremos sẽmpre presente esta sphera, bẽm pertinho do coraçom, tal joia preciosa & acarinhada.”
Dona Inees sorriu, “Dom Joham falanos da alquimia interna”, “da alquimia interna” retorquirom, “sim, da alquimia interna, mas isso hè materia pera proçimo seraõ”.
Do que o oráculo vaticinou pera a ditosa ẽmpresa
Dom Zèh & Dona Graça mostrarom laivos de impaçiẽncia, observãndo q jaa se avyam allongado os preparativos, & indagavom se naõ era jaa tẽmpo de ir a caminho, q a jornada era desconheçuda & desconheçudas erom as dificuldades, & q deviãm chegar ao termo antes de ho crepusculo. “Decerto, decerto” anuiu Dom Joham, “vamonos poor ẽm marcha, mas naõ sẽm consultar o oráculo, & pera tal rrogovos q acalmades vossos animos”, & continuou, “o oraculo vay poder darnos boa visaõ dos designyos de nossa ẽmpresa, das leys do destino, das forças q ante noos se protraẽm, & de como attender aos obstaculos q vierẽm obstar a nosso progresso”, & continuou ẽm modo interrogativo, “q achades desta proposta”. Miraromsse ẽm volta, surpresos, mas levados por algũa curiosidade & tambẽm porq sentiaõ hũm dever de solidariedade, anuirom ao intẽnto & entaõ Dom Joham tirou de seo saco hũm livro grosso e encadernado cõm capa de carneyra ẽm q se via gravado ẽm fundas letras escarlates o seguinte titulo “Yi Jing”.
“Este hè o Tratado das Transformaçoẽns”, anunciou Dom Joham solemne, brandindo o livro ẽm guisa de biblia ou de alcoraõ ou de qualquer outro escrito q cõm o passar dos seculos se tivesse tornado monumẽnto sagrado pera as sociedades dos humanos, “Summa da sabedoria china” prosseguiu, “aperfeiçoada no cadinho de milennios, universal ẽm sua naturaleza, sẽm ligaçaõ a rreligioẽns, seytas, cultos, mas testemunho do rico pensamẽnto oriental q identifica o Tao como a essencia da vida, & segundo o quoal toda a nossa existencia hè movimẽnto, q nada hè fixo & q cada momẽnto contẽm ẽm germe o momẽnto seguinte”, & todos ho ouviam atẽntos & cõndescendẽntes, naõ q estivessem convencidos q a leytura de sinas fosse o mais appropriado pera a ventura q logravom, & ademaes as sciencias ẽm q erom doutos naõ os predisponham a ir muyto alẽm da logica de Aristoteles ou de Sancto Thomas de Aquino.
“Vamos entaõ proceder haa consulta do Yi Jing”, disse Dom Joham, suspendendo a phrase por instãntes, “primeyramẽnte concentremonos de novo nas nossas intençoẽs de peregrinaçaõ” & fecharom os olhos sẽm pera tal serẽm ordenados, a luz do dia penetrava jaa polas janellas, naõ estava sol & o presagio era antes de chuvia, o cheiro dos moveis antigos ençerados enchia o espaço, hũ silẽncio tranquillo entrecortado polo arfar das respiraçoẽns & de algũa mosca atrevida, os peregrinos evocavom os anelos q buscavom pera suas vidas & hũa energia de paz surgiu naquele grupo.
“E agora, cõm estas evocaçoẽns & ẽm nosso nome, vou indagar o q a sabedoria ancestral tem pera nos dizer haa seguinte pergunta
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Hexagramma KUI — Divergência “KUI, Divergẽncia”, disse baixinho Dom Joham enquãnto iniciava ha cõsulta de ha vetusta obra, “Bruma em baixo, Fogo arriba, Fogo vai pera cima, Bruma vai pera baixo, divergẽncia, ho texto canonico dize ‘pera hos pequenos negocios abertura’, hè hũm texto muy curto, divergẽncia indica q se trata naõ de desavẽnça ou conflito radical mas de occasiaõ de atenuar gradualmẽnte as tensoẽns, de alterar ho olhar cõ q se ẽncara hũa pessoa ou hũa situaçom, ha estrategia hè Yin, deixar fluir & apaziguar, tudo estaa ẽm ha perspectiva adoptada”.
“E entom, q veredicto temos” demandou Dom Zèh familiar de hos procedimẽntos judiciaes ẽm q ho juez maximo promulga sentẽnça certa, “meos amygos” retorquiu Dom Joham, “ho texto ãncestral acõnselha ẽm exercitar visaõ redobrada pera reconhecer has evẽntuaes tẽnsoẽs & melhor has dirimir, podemos dezer q has energias q nosso designio animaõ nos movẽm ẽm hir avãnte”.
Despoes de tam allongado apresto & de terẽm cõnvocado ho visivel & ho invisivel, cõnfortados cõm ha sina, sẽm comentarios, hos peregrinos respirarom serenos enquãnto se alevantavom & recolhiam suas pertenças ca avya mister de sẽm tardar se lançarẽm ao caminho.
“Doravante” concluiu Dom Joham, “ho nosso lema hè
De como iniciarom ho caminho de SanctYago
Hè ho parador dõnde se quedarom hũa grãnde mansaõ de õnde se podia avistar ha rrya de Ferrol, muy bẽm ĩmplantada, cõm jardĩms lustrosos, architectura elegãnte, hũa vista preciosiçima, mesmo hao lado de ha Igrexa Castrense de San Francisco, & tambẽm de ho caminho de SanctYago.
Sairom hos peregrinos do albergue levando seos saccos & capas, promptos & ledos & ẽmbrenharomse polo caminho sẽm maes dellongas ca ho dia jaa hya alto, mas de subito Dona Graça exclamoo “eh amygos, aqui nom hè o inicio de ho caminho”, “e entom” respõndeo Dona Hẽnriqueta opinando q se o caminho passava alli hè q podia ser tomado, “q naõ” retorquio Dona Graça, “do zero devemos encetar”, “& aonde hè o zero”, “hè defronte haa rya”. Detiveromse per instãntes, indagando a determinaçom de Dona Graça, “hè essencial q se inicie o caminho do zero” exclamou, “ca tudo começa no zero, hè o zero q permite ha existẽncia de tudo, ho zero hè apellaçom infinita pera ho movimẽnto de ha matheria & desde o grãnde mathematico Fibonacci se sabe q sẽm zero nom ha escala arithmetica”. “Vamos hao zero entõmces” & puseromse ẽm andamẽnto pera a borda mar, certos q iriam ab initio atee haa meta final ca Dona Graça, mathematica de seo officyo, sabia ho q dezia & assĩ se avya assegurado a ordẽm dos elemẽntos.
Ha pouco menos de dez minutos de marcha do parador junto haa costa da rrya jazya hũm marco q patenteava ho inicio de ho camiño & hũa tabula afixava hũa seta amarela indicãndo per donde deviãm de arrancar hos peregrinos. Ẽm chegando ha tal ponto, hũa emoçaõ apoderousse delles, puseromse de novo ẽm roda de braços dados & gritaram “Ultreya”, “et Suseya”, “Deus adjuvat nos”, & per fĩm, “Bõm caminho”.
Promptificavomse ha caminhar quãndo Dona Inees, retirãndo hũm cantil de seo farnel, hos interrõmpeo “de Ferrol avemos de levar pera nossa jornada agua & sal, esperade hũms instãntes q asinha vou haa praya & jaa volto” & dessa feyta foi haa margem da rrya & encheo seo cantil de agua salgada. “Temos agua & temos sal, elemẽntos pera nossa alquimia” observou Dona Inees haos romeyros ẽm retornãndo offegãnte da margẽm. Ẽm hos sẽmbrãntes ha interrogaçaõ era visivel, agua salgada q razom nom viãm pera tal, agua de nascẽnte sĩm, q polo caminho encontrariam, fresca & cristalina, brotãndo ẽm meyo de rochedos & de verdura, pero agua salgada soo pera soluços o pera algũm azougamẽnto. Dona Inees q sabia tambẽm ler has almas, notou ho scepticismo silencioso de seos companheyros, sossegou hos “ẽm hora de seraõ vos instruirei, vamos tranquilos”. E lançaromse ao caminho de SanctYago.
Ultreya, Ultreya, et Suseya !
Ha emoçaõ advinda do primeyro passo no Caminho foy indescriptivel, enfĩm hyam aavante, todoslos peregrinos, haa descoberta do desconhecido, ẽm hũm movimẽnto unico, sẽm retençaõ, avançar, passo apoos passo, sacco ha tiracollo, SanctYago adonde estaes, trilhos de multidoẽs sse condensaramos hos seculos ẽm hũm solo ĩnstãnte, avançar, avançar & concentrados nesse andar galgarom a distancia q hos levava de novo à Igrexa de San Francisco, hao parador adonde pernoitarom & seguiraõ ẽm frente polas ruelas estreytas de Ferrol, pequena povoaçam de agricultores & pescadores ẽm q existiaõ apenas algũns barryos de humildes casas das quoais se destacava, altaneyra, a moradia do alcaide, unico vestigio de algũa nobreza q por alli se estendia ca loñge estavam os heroicos feytos do passado q remõntom haa presença dos artrabos antes dos romanos terem allargado o seo dominio haa hispania.
Ho atalho q sahia de Ferrol bordejava ha rrya tal ũa serpente fitando sẽm esmorecer ha agoa prateada, mistura de mar & ryo quãndo o sol ha banhava ẽm hos dias de ceo limpo & hos peregrinos ho tomarom passando por entre has ervas das veigas umidas & saltando de pedra ẽm pedra q has avya, ou trilhãdo terras & ervas patiñadas cõ suas botas & bordoẽs de bõm andar. Hyam ledos, cõm ha certeza no aanimo & ho olhar perscrutando ha paysagẽm q descobriam, respirando ha aragem ligeira daquella manham de outomno. Caminhar sẽm pensar nos passos dados como ẽm hũ proiectar incessante pera frente, ho bando de peregrinos seguya ẽm carreyro deslizante enquanto se avistava mesmo hao lado a paysagem liquida & movediça adonde balouçavom hos bateis da fayna piscatoria das redondezas, ca ẽm todala regiaõ ha gentes laboravom as terras & deitavom has redes pera captura de ho pescado.
Caminhar horas haa fio naõ era intẽnto facil pera quẽm naõ era familiar das estradas & ademaas pera quẽm vinha de huma ilha como hos nossos peregrinos da Madeyra adonde ẽm vez de extensoẽs de planuras avia apenas escarpas basalthicas q de todolos lados se erigem hao ceo atlantico & hos ilheos que hos nossos nobres eram tiverom de se adaptar cõm rapidez haa nova empresa mas isso naõ foi dificil pois hiãm cõ determinaçom augmentada.
As primeyras horas passarom absorvidas pola novidade do percurso ate q ẽm sendo jaa andados per algũm tempo se detiverom ẽm hũm poiso pera refrescar sedes & descansar pernas q assĩm dezia o taberneyro ao servir, peregrinos, descansai vossas pernas q apenas começastes vosso padecimento, & ria de soslaio sabendo q mais tarde o seu mote encontraria echo certo nos pès doridos dos camiñantes.
Andada a primeyra legoa, depararamsse cõm hũm monumento q defrontava a rya, igrexa & parrochia como deziam os gallegos & mosteyro, os sinos tocavom, era o mosteyro do Couto, tambẽm chamado mosteyro de San Martinho de Xuvia.
Fim da Primeira Parte