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«Flores de Jasmim» — apresentação em Bruxelas

Texto da apresentação do romance «Flores de Jasmim» pelo Dr. Joaquim Silva Rodrigues, na Livraria Orfeu, em Bruxelas, a 17 de Maio de 2011.

Apresentação do romance «Flores de Jasmim», pelo Dr. Joaquim Silva Rodrigues. Livraria Orfeu — Bruxelas, 17 de Maio de 2011, 18h30.


Aquilo que nos primeiros momentos, em particular no início da leitura, parecia ser um exercício pesado — tendo em conta que me foi facultada a versão ainda em formato Word do romance, com muito texto, muitas páginas e uma longa história — rapidamente (mas foi uma questão de breves momentos) se transformou num verdadeiro desafio: o de escolher, de entre todas as leituras que tinha em curso, dedicar-me exclusivamente à leitura deste romance.

«Guida ajustou-se na cadeira, como se fosse o final do primeiro acto, os preliminares de cópula fantasmagórica, num jogo teatralizado de dança nupcial. Só a ideia suscitou-lhe um nojo profundo. O agente queria ser simpático, mostrando verniz de pessoa educada? O quê? Um Pide educado? É verdade que nunca tivera tratado com agentes desses e que não os conhecia. No entanto, imaginava-os como uma espécie de mostrengos, sanguinários, perversos, cruéis e insidiosos, uma combinação de besta-fera voraz e de réptil ardiloso capaz de invadir a privacidade das pessoas pelas maneiras mais inesperadas, ajuntando a maciez do trato à crueldade do veneno de víbora!»

cap. 31, p. 350

Caro João Gabriel

A «Ilha da Revelação» surge-nos como fonte de importantes revelações: a do escritor apaixonado, minucioso e rigoroso no detalhe e na descrição, e a revelação de um mundo e de uma sociedade para muitos de nós apenas conhecida por fora — ou então mal conhecida.

Da «Rua do Jasmineiro» brota o perfume a flor de jasmim de uma sociedade até então impenetrável: a da vida nos seminários e dos seminaristas. Mas também uma sociedade em fase de tomada de consciência de dois factores adormecidos pela temperatura quase sempre amena da Ilha da Madeira: a ruptura com o regime político em Portugal, e o mundo ao mesmo tempo misterioso, místico e obscuro da vida no seminário.

Como dizia Júlio:

«O seminário era um planeta estranho, electrão perdido de uma estrela desconhecida, delimitado por um espaço próprio.»

Eu não tenho conhecimentos nem sequer arte para fazer uma análise de crítica literária de «Flores de Jasmim». Por isso, decidi deixar-me levar pela corrente de escrita do João Gabriel.

Conheço um pouco da Ilha da Madeira (por razões profissionais), e por isso mesmo quis deixar-me arrastar pelo romance para ver em que medida a Madeira de Maio de 1969 correspondia à ideia que eu tinha antes de conhecer a Madeira do século XXI. Assim que descobri o enredo, quis ver no que dava — e por isso não perder uma pitada do sal e da pimenta com que o João Gabriel tempera este romance.

«O mundo está dividido em duas categorias: os seminaristas e os outros. Somos diferentes, estamos num outro planeta, numa ilha de desterro de onde mal se avista o resto do mundo. Isolados a fingir que temos uma grande abertura de espírito. O que é ser seminarista?»

É precisamente esta dualidade da vida, esta aparente dicotomia da sociedade descrita no romance do João Gabriel, que nos é dada a conhecer através da sua análise da sua Ilha da Madeira, vivida intensamente em finais dos anos sessenta.

Ficção e história

Tivemos aqui na «Livraria Orfeu» a oportunidade de assistir recentemente à apresentação dos «Diários Secretos de Eva Braun», de Simone Bernard-Dupré e François Renuit. A partir de uma carta manuscrita de Eva Braun, os autores enveredaram por uma via de ficção e, sem se afastarem de dados históricos fundamentais, penetraram no mundo do provável. Pela via do que seriam provavelmente as atitudes e os comportamentos das personagens envolvidas na ficção, permitiram que o leitor construísse por si próprio a imagem e o perfil do que muito «provavelmente» teriam sido Eva Braun e Hitler.

Para o João Gabriel, embora utilizando o mundo da ficção, não houve necessidade de recorrer a artifícios muito rebuscados para construir o perfil da sociedade portuguesa e madeirense do final dos anos sessenta — assim como o perfil que eu diria afinado e exacto do seminarista e da classe clerical dessa época, com ingredientes de história política e social de grande valor.

Com toda a probabilidade, o que lemos em «Flores de Jasmim», mais do que arquétipos tipificados e importados de algum manual de sociologia, corresponde ao perfil da sociedade portuguesa da época, corresponde à vida no seminário e à vida dos seminaristas. Com toda a probabilidade, corresponde ao que se anunciava já como o início do virar da página do regime político salazar-marcelista.

Recordo que, também aqui na Livraria Orfeu, foi apresentado há algum tempo o livro «Memórias do Funchal», de um outro ilustre madeirense, José Manuel Melim Mendes. Nesse livro (penso que ainda disponível na Orfeu), a Ilha da Madeira é dada a descobrir em tempos ligeiramente mais remotos — de finais do séc. XIX até meados do séc. XX — através dos postais ilustrados. É fascinante vermos o que era a Madeira desses tempos para comparar com o que ela é hoje.

Com «Flores de Jasmim», João Gabriel não utiliza o estilo do postal ilustrado, que pudesse eventualmente conduzir o leitor pelas levadas verdejantes de laurissilva na sua visita iniciática à Ilha da Revelação. Utiliza, isso sim, o conhecimento profundo da vida naquela sociedade que estava em vésperas de transformação — da vida que a um tempo se passava no interior do seminário e, numa outra dimensão, na vida quase corriqueira dos namoros apaixonados que derramavam lágrimas de paixão e rosários de promessas de amor eterno nos rochedos do Lido ao Garajau.

Guida e Júlio

Guida e Júlio não surgem do nada: a jornalista vinda do continente tem consigo uma vida e uma vontade de mudança que não eram comuns na pacatez da Rua do Jasmineiro. Nem a diferença de sete anos de idade entre ambos foi obstáculo para o desabrochar de sentimentos muitas vezes recalcados pelo rigor do seminário. A vida — a vida nova, naquele Funchal de Maio de 1969 — não podia voltar a ser a mesma.

João Gabriel compreendeu que entre a militância política um tanto ingénua, mas simultaneamente genuína, e a descoberta da vida parada no tempo, era preciso dar ao leitor a ocasião de entrar ele próprio no romance, de partilhar a visão efervescente e de rápida transformação da sociedade insular — e, ao mesmo tempo, daquele que na época era o mundo conhecido.

Eu tive curiosidade em ver e redescobrir em que medida é ainda possível escrever em bom português: português bem construído, rico, variado, ao mesmo tempo claro e elaborado sem ser (sempre!) rebuscado. Quase que vemos este texto dactilografado numa «velha máquina de escrever Olympia, com teclas redondas e teclado CESAROP, a configuração de letras do teclado português» que todos conhecemos antes da época actual e que certamente o João Gabriel ainda chegou a ver quando passou ficticiamente — ou na realidade — pelo gabinete do reitor do seminário.

Um romance sem preconceitos

Como disse, no início pareceu-me um desafio complicado: eu não conhecia o autor, não sabia por que ponta pegar nem por que caminhos ele queria levar o leitor — e, acima de tudo, tive receio de ficar desapontado com a sua descrição da Madeira que é a sua, e de que eu agora conheço um bocadinho, e que o leitor também ficará a conhecer. Nada disso aconteceu: os meus receios transformaram-se numa vontade férrea de saber onde tudo acaba em «Flores de Jasmim», depois de ver como tudo começou.

Vou confessar-vos mais uma opinião pessoal: cheguei a ter receio de dar com uma história requentada e repetida, cheia de lugares comuns. Um romance como tantos outros que começam no mesmo ponto e terminam em bem ou em mal, competindo ao leitor escolher se chora ou se ri num final mais ou menos feliz. Também tive receio de encontrar uma versão pessoal de «Histórias da minha terra» — apesar de achar que cada vez mais deveríamos escrever as nossas histórias das nossas terras. Enquanto para tal nos reste engenho e arte…

«Flores de Jasmim» é, no fim de contas, um romance escrito sem preconceitos e sem complexos: nem pessoais, nem políticos, nem históricos. Não é um conto, na dimensão em que João Gabriel se pode considerar pessoalmente um contador de contos. É um verdadeiro romance histórico, que alcançou dimensão própria.

Vi-o e li-o, acompanhado de um permanente perfume a flor de jasmim: fresco, vivo, doce. Terminei a leitura sinceramente emocionado e com arrepios à flor da pele.

Conclusão

Queria, mais uma vez, salientar a qualidade da escrita do João Gabriel e a forma — ao mesmo tempo fluida e detalhada — com que foi capaz de fazer este caminho retrospectivo de mais de quarenta anos.

Não vou alongar-me, nem sequer desvendar o enredo, porque essa seria uma má prestação à obra do João Gabriel. O leitor tem o direito de o fazer por si.

Agradeço sinceramente ao João Gabriel o ter escrito «Flores de Jasmim».

Admiro e dou os parabéns ao Joaquim Pinto da Silva e à Livraria Orfeu por mais esta edição. A ambos desejo os maiores êxitos.

Obrigado pela vossa atenção.


Bruxelas, Livraria Orfeu, 17 de Maio de 2011 J. Silva Rodrigues

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